DE PRIMEIRA GRANDEZA: O QUE FAZ DE JOSÉ DIRCEU UMA PERSONALIDADE HISTÓRICA DA ESQUERDA BRASILEIRA? - Juventude Petista do RN

Semana 13

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

DE PRIMEIRA GRANDEZA: O QUE FAZ DE JOSÉ DIRCEU UMA PERSONALIDADE HISTÓRICA DA ESQUERDA BRASILEIRA?


Por Jackson Rayron Monteiro*

Luz é a força que permite a percepção de todos os objetos existentes desde que a sensibilidade ocular esteja em perfeito condicionamento. Segundo a tradição judaica, a luz foi convidada por YWHW para fazer parte do arranjo do universo muito antes de haver sol e outros astros iluminados ulteriormente percebidos pelo homem Adão. Desse modo, a luz foi quem desnudou a matéria universal e permitiu que aquele broto de humanidade pudesse contemplar o brilho que radiava das outras fontes luminosas. A título de analogia, se existe alguém no Brasil que cumpriu plenamente a função de “dar brilho às estrelas” da esquerda nos últimos anos, esse ser antológico é o companheiro José Dirceu de Oliveira e Silva. 
Mineiro, natural da cidade de Passa Quatro, Zé Dirceu deu o primeiro sopro da vida no dia 16 de março de 1946, poucos dias antes do dia de São José: daí o nome José. Filho de Dona Olga – nome que já traz em si um peso histórico – e de Seu Castorino, o menino Dirceu fez da infância uma atmosfera de aventuras intensas e traquinagens de criança: um bruxuleio de subversão. Neto de fazendeiros por parte de pai e de ferroviários por parte de mãe, Dirceu nunca se portou como um “aburguesado” enquanto levava a vida na simplicidade de quem espera um amanhã de plena paz. 
No fim da adolescência, o filho de Dona Olga é aprovado no vestibular para cursar Direito na Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O êxito do jovem cabeludo foi recebido com alegria pela família, todavia as mensalidades da faculdade privada se tornaram razão de ser das horas trabalhadas por Seu Castorino na sua pequena gráfica. Aqui está se falando de 1964, ano em que no dia 31 de março a cadeira da presidência da República é declarada vazia enquanto uma junta militar usurpa o poder e prepara o funeral da democracia brasileira. Nesse passo, José Dirceu já tinha lado e passa a militar contra o Golpe de 64 de dentro do Centro Acadêmico da faculdade de Direito. Jovem de boa aparência e afeiçoado pelo embate de classes, o rapaz logo recebe codinomes como Ronnie Von das Massas e Alain Delon dos pobres.
Dentro da faculdade, José Dirceu comandou uma luta estudantil contra o aumento das mensalidades da PUC e paralelamente combateu o discurso fascista de alguns professores apoiadores do Golpe. Imerso até as pontas do cabelo nas lutas populares, o rapaz se aproximou do Partido Comunista Brasileiro, que tinha como principal quadro da luta armada o guerrilheiro que abalou o mundo: Carlos Marighella. Nesse ínterim, não demorou muito para que os conflitos estudantis ganhassem a conotação da realidade passando a se tornarem cada vez mais violentos, o que ficou claro com o embate armado que envolveu estudantes da PUC (progressistas) e do Mackenzie (apoiadores do Regime Militar) na rua Maria Antônia. A intervenção da PM do DOPS ao lado dos mackenzistas manchou de sangue a história do Movimento Estudantil brasileiro quando um projétil da polícia tirou a vida e os sonhos do estudante Edson Luiz, socorrido às pressas, mas sem sucesso, pelos seus camaradas – episódio que marcou, como vários outros, a brutalidade dos anos de chumbo. 
O jovem José Dirceu: Ronnie Von das Massas
Em 1968, ano do 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes (CONUNE), o Ronnie Von das Massas era o candidato preferido dos estudantes. Líder nato, Dirceu recebeu apoio de vários coletivos da época, como o do grupo católico liderado por Frei Betto assim como o apoio de camaradas que mais tarde seriam seus correligionários: José Genuíno e Vladimir Palmeira. Pela falta da estratégia adequada ou pela conjuntura, o congresso clandestino na fazenda de Ibiúna (SP) logo foi descoberto pela polícia política e acabou com companheiras e companheiros fichados enquanto as principais lideranças eram aprisionadas. E é a partir daqui que Dirceu passa a se construir como uma estrela de primeira dimensão por três razões: sobreviveu aos anos de chumbo na clandestinidade, se organizou politicamente com a abertura democrática e teve participação decisiva no Estado brasileiro – feitos que nenhum outro guerrilheiro realizou, apenas a combatente Dilma Rousseff. 
A liberdade da primeira prisão política de José Dirceu é alcançada somente após o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, ato realizado pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e pela Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcados no avião Hércules 56, da Força Aérea Brasileira, Dirceu e seus camaradas são levados para o México e, em seguida, para o exílio em Cuba onde conhecem os irmãos Castro e logo passam a fazer treinamento de guerrilha. Nesse passo da sua história, Dirceu se acidenta durante um treino intensivo de brigada revolucionária. Com tratamento imediato, o rapaz é escalado pelo poder cubano para liderar, na clandestinidade, a revolução brasileira. Para tal feito, Dirceu se submete à uma cirurgia plástica de modificação de rosto, o que o impedia de ser reconhecido no país de origem. Ao chegar ao Brasil – após vir e voltar a Cuba uma outra vez – como Carlos Henrique Gouveia de Mello e encontrar as forças revolucionárias brasileiras desarticuladas, o clandestino passa a liderar o Movimento de Libertação Popular (Molipo), que poucas ações consegue realizar em prol da revolução social. Nesse meio tempo, o agora Carlos Henrique se casa com Clara e, na clandestinidade, os dois têm como filho o hoje deputado federal Zeca Dirceu. 
Nesse momento da vida, mesmo estando no Brasil, o filho de Dona Olga tinha saudades de casa. Como deixar de ser sem sair de dentro de si? Esse é um dilema de todos aqueles que se dispõem a pagar o preço da libertação popular, pois lutar pela mudança do que deve ser mudado não é tarefa simples. Sendo assim, Carlos Henrique só volta a ser Zé com a aprovação da Lei de Anistia, quando retorna à Cuba, desfaz a plástica, volta para o Brasil com barba feita e é recebido com o abraço caloroso de sua mãe. 
De volta para casa, Dirceu é convidado por Frei Betto para participar da construção de um partido político que já estava sendo gestado por sindicalistas do ABC paulista. Todavia, como um guerrilheiro treinado para a revolução se alinharia às propostas sociais elaboradas por sindicalistas sem nenhum conhecimento revolucionário? Aceitando resistente ao convite, no sindicato dos metalúrgicos o Alain Delon dos pobres é apresentado a um homem de estatura média, barba negra e fumante inveterado . Aquele camarada seria o sujeito responsável pela inserção do Brasil no século XXI e que com a ajuda do filho de Dona Olga e de milhões de brasileiros se tornaria o presidente do país: era Luiz Inácio da Silva, o Lula! Dadas as devidas honras, em pouco tempo estava mais do que pronto o projeto do Partido dos Trabalhadores, PT. 
A partir daí, Zé passa a assumir o papel de principal articulador político não só de Lula, mas de todo o PT. Dele foi de quem veio o ímpeto de organizar as várias tendências do partido em torno de uma majoritária que, de fato, tornasse viável um projeto político: a Articulação dos 113. Nas várias campanhas eleitorais permitidas pela redemocratização, Dirceu foi eleito deputado estadual, federal, mas nunca abandonou o seu compromisso maior com o povo brasileiro, que era e sempre foi colocar na República um projeto nacional de emancipação popular que, naquela altura, significava a eleição de Lula como presidente. O projeto do PT perde em 1989, em 1994, em 1998, mas em 2002 o Brasil assiste pela primeira vez a vitória de um presidente de origem popular: Lula é eleito presidente e no dia 1° de janeiro de 2003 assume a República.

Dirceu, Lula e outros camaradas.
Dirceu, Ministro Chefe da Casa Civil e o Presidente Lula. 

Nesse momento, Zé Dirceu alcança a burocracia do Estado como Ministro Chefe da Casa Civil enquanto passa a ser conhecido como o Primeiro Ministro de Lula. De lá – e juntamente com todo o carisma e competência de Lula – o Ministro da Casa Civil comanda todo o sucesso do governo petista. Respeitado por grande parte do Congresso Nacional, o filho de Dona Olga consegue atrair um número considerável de bancadas para aprovações na Câmara e no Senado, o que em certa medida estabilizou o governo. No entanto, como a Roda da Fortuna gira em torno das classes dominantes que são intolerantes aos governos populares, em pouco tempo o Ministro é acusado na Ação Penal 470 – o Mensalão – onde é denunciado por compra de deputados, corrupção e outras lavajatices. Naquele mote, o então ex-Ministro foi condenado e no dia 15 de novembro de 2013 se apresenta à Polícia Federal de São Paulo: sua segunda prisão política. 
Mais tarde, no show pirotécnico da Lava Jato, Dirceu é mais uma vez vítima da seletividade da justiça brasileira, dessa vez pelas mãos do atual Ministro da Justiça Sergio Moro. Como ovelha muda perante os seus tosquiadores, o companheiro petista nem sequer cogitou acordos de colaboração premiada – não aceitou fazer da mentira a sua postura humana. No cárcere, o camarada Zé fez das grades o espelho da sua história, do lápis a sua arma revolucionária e do caderno o seu psicanalista de tempo integral: começou a escrever a sua autobiografia intitulada Memórias I, onde relata toda a sua trajetória política. 
Livre e novamente aprisionado em 17 de maio de 2019, José Dirceu de Oliveira e Silva ganha novamente a liberdade em 09 de novembro de 2019 após o STF decidir por 6 votos a 5 a inconstitucionalidade do cumprimento de pena após o julgamento em segunda instância – decisão que também deu liberdade ao presidente Lula. Livre, Dirceu deixou muito claro qual deve ser a postura do Partido dos Trabalhadores: assumir a responsabilidade de ser de esquerda e, acima de tudo, de ser um partido que luta pelo socialismo
Lula e Dirceu livres. Os dois se reencontraram após 12 anos sem contato. 

Como qualquer quadro político de grande notoriedade, a atuação de Zé de Dirceu é passível de críticas fora e dentro do PT – principalmente pela forma como a Construindo Um Novo Brasil, CNB, tendência que ele ajudou a construir, se comporta frente às decisões internas do partido. A despeito disso, nada é capaz de apagar da História o trajeto do menino de Passa Quatro, que se apaixonou, que foi guerrilheiro e que comandou, juntamente com Lula, uma revolução de inclusão social de dentro do Estado brasileiro – atributos mais do que suficientes para fazer desse companheiro uma personalidade emblemática da esquerda do país
Portanto, camarada Zé, seja bem-vindo ao lugar que te é devido por excelência: a liberdade. Quanto ao mais, a História te absolverá!

1  Torá. Gênesis I.
 DIRCEU, J. Memórias I. São Paulo: Geração Editorial, 2018.
3 CABRAL, O. Dirceu: A Biografia. Rio de Janeiro: Record, 2013.
4 VENTURA, Z. 1968: O Ano que Não Terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
5 GABEIRA, F. O Que É Isso, Companheiro?. São Paulo: Companhia das Letras, 1979.
6 REVISTA FÓRUM. Zé Dirceu: “Agora não é por Lula Livre. Agora é para retomarmos o governo do Brasil”. 09/11/2019. Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/lula-livre/ze-dirceu-agora-nao-e-por-lula-livre-agora-e-para-retomarmos-o-governo-do-brasil/






Jackson Rayron Monteiro 
Economista, Músico e Membro do Diretório Municipal do PT, Pau dos Ferros/RN.

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